A maldição da argumentação

Como é possível que alguns temas sejam abordados de maneira concisa e profunda, mesmo sendo repletos de erros e imbecilidades? Esse é o poder da argumentação e o porquê devemos dominá-la.

Se algo não segue princípios lógicos razoáveis e cria sua própria lógica através de nada além de uma argumentação porca, se torna impreciso correlacionar o argumento com a razão das coisas. É como tentar aplicar a lógica realista a uma obra abstrata, que não possui forma, mas traços sem princípios que tornam em moldes que o cérebro reconhece, mas não processa de maneira coerente.

E assim, é por meio da argumentação que surgem absurdidades tão estapafúrdias que desafiam a própria razão, e as pessoas mais sensatas se encontram em um emaranhado de ideias (retardadas) que não possuem sentido, pois são formadas de malabarismos de palavras.

A arte de argumentar é, sem sombra de dúvidas, um dom predatório que faz parte das capacidades de uma parcela significativamente pequena da população. Isso porque expor ideias e se contrapor a um oponente é tarefa de certa complexidade, e estando em um país de pessoas iletradas, o argumento se torna uma arma poderosa.

Essa ferramenta é usada desde os primórdios da civilização para se obter controle social sem a aplicação da força ou medo. Fazer com que seu inimigo ou subordinado acredite em seus ideais é a maior garantia de que ele se manterá firme em sua postura.

Portanto, a argumentação se trata de uma faculdade a ser usada para alterar o pensamento alheio. A definição própria de "argumentar" é:

"1. verbo intransitivo apresentar fatos, ideias, razões lógicas, provas etc. que comprovem uma afirmação, uma tese.

2. verbo transitivo indireto e intransitivo apresentar ideias em objeção a outras ideias; entrar em controvérsia; discutir, disputar".

A argumentação é feita do conjunto de ideias colocadas em uma ordem para que se resolva uma questão através da observação da realidade e experimentação. Ou ao menos deveria ser. A inversão desses valores é algo comum e constante, onde se utilizam de argumentos travestidos de fatos para criar respostas a uma problemática que não existia até então ou que não possui base factual.

As pessoas são capazes de argumentar sobre coisas que não sabem, mas que, por meio de uma lógica teoricamente racional, associar informações e encaixá-las a um objetivo pré-estabelecido. O jogo das premissas faz com que a máxima de "todo homem é mortal, fulano é homem", etc., seja utilizada para grande parte das áreas do conhecimento.

O problema está nisso. A argumentação pode ser utilizada sem fundamento teórico, sem base lógica e suas bases podem ser criadas a partir do nada, só é preciso um pouco de esforço mental para tanto.

Disso surgem absurdidades como "terraplanismo" e "gênero-fluído", por exemplo, que pervertem os princípios empíricos de observação da realidade e se voltam a uma argumentação interna que tem a única pretensão de alterar a ordem das coisas. Terraplanismo, em síntese, surgiu como uma resposta que originou perguntas. A ideia foi "hm, a terra é plana, foda-se. Agora, como a gente faz para provar isso?".

Para os desconhecedores de tais assuntos, que não conhecem a parte lógica das coisas, o argumento de que uma pessoa pode fluir entre os gêneros, que eles podem ser criados do nada pelo bel prazer da mente perturbada do jovem moderno, ou que existe um domo protegido pelo exército americano que cerca o mundo pode parecer razoável e, portanto, aceito.

Recentemente, vi uma publicação sobre uma jovem que elencava os motivos de uma crise econômica em: "superprodução, liberalismo, concentração de renda, recuperação da economia na Europa (como se essa merda fizesse algum sentido), e especulação na Bolsa de Valores". Não é foco, mas repare como o ideal marxista é aplicado aos tempos de hoje. Para os mais esclarecidos, a ideia de que as empresas produzirão incansavelmente e que a liberdade de comércio causará uma crise é uma simples baboseira.

Por outro lado, talvez ela tenha convencido algumas pessoas, como Karl também o fez na modernidade, sem desqualificar as pessoas iludidas pelo contexto histórico pós revolução industrial que viviam.

É possível se argumentar em prol de qualquer coisa, desde que as palavras possam ser formadas de maneira linear a formar um pensamento. Isso não quer dizer que seja verdade, mesmo que possa parecer coerente.

A primeira pergunta que se forma é: como identificar um fato e um argumento?

É bastante complicado, a menos que você também saiba sobre o que está falando. Argumentos podem vir travestidos de fatos, até dados podem ser direcionados a fundamentar uma ideia mentirosa. É aí que entram as falácias argumentativas, elas servem para embasar qualquer coisa com qualquer bobagem. Apelo à autoridade é uma das mais comuns, vê-se, por exemplo, nas explicações sobre fascismo de você sabe quem. Os "historiadores gabaritados" não servem para nada mais que tornar a argumentação em fato incontestável através do apelo à ideia de que um "historiador sabe tudo sobre história" e ponto final.

A segunda é: como não se deixar levar por argumentos?

Não aceite ideias a menos que você compreenda seu surgimento. Pare e pense em algum assunto polêmico, algo que defende com veemência, e se pergunte: de onde eu sei isso? Se a resposta surgir como "vi em algum lugar, mas não me lembro onde" ou pareça como algo que "você sempre soube", na verdade você não difundiu essa ideia, você absorveu a argumentação de outra pessoa, e isso pode ser perigoso.

Portanto, em resumo, se contrapor a um argumento não é sempre combatê-lo no mesmo momento, mas entender que ele existe como forma de convencimento e se ater aos limites do próprio conhecimento. A maior argumentação que fazemos é com nossas próprias ideias. Estamos sempre argumentando para que não deixemos o ideal que parece bom aos nossos olhos desfalecer, mesmo que esse ideal seja milimetricamente retardado.

Talvez você tenha concordado com o texto, talvez não, mas quer saber de uma coisa? Não pesquisei nada para embasar o meu argumento sobre. E se você tiver concordado, considere pesquisar o assunto mais a fundo como eu o farei a partir de agora. A ideia foi criar um texto com base em nada mais do que ideias que absorvi. Talvez estejam certas, talvez não, mas como você saberá ao fundo se apenas parecer razoável e você aceitar? Estude.

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