Carta aberta aos leitores de manchete

Não me porto como alguém que se sustenta com base em mentiras. Ocultar a verdade, enviesá-la ou mesmo deixar que outros tomem alguma ideia sua para fazer seu próprio discurso é também uma mentira e, portanto, é meu dever me colocar tal como devo. Talvez isso seja ruim, mas quem se importa? Fazer vista grossa ao que é errado porque me favorece não me torna diferente daqueles que critico.

Recentemente, escrevi uma publicação com um intuito simples, demonstrar através de fatos não tão magníficos que um artista possui quase sempre um viés errado em suas ideias, uma intimidação ou direcionamento por parte de produtores e assessores de imprensa que fazem com que essas pessoas públicas tomem posicionamentos sobre fatos que nem sempre condizem com as ideias do próprio artista. E quando acontece, se dá de forma rasa, superficial. Por isso, não considere o que aquela pessoa disse (na maior parte dos casos), independente do posicionamento dela, se ela concorda ou não com o que você mesmo pensa, não faz diferença.

A publicação tem se tornado uma bola de neve, com pessoas de "direita" e "esquerda" debatendo calorosamente o tema, alguns defendendo, outros ofendendo abertamente artistas que, presentes na imagem da thumbnail, possuem posicionamentos políticos diferentes dos que a postagem alcançou.

O problema é que o tema da discussão não é o assunto tratado. O fato do título ser "Artista não tem opinião" não invalida a opinião embasada de um artista, nem desqualifica seu trabalho como tal. Tampouco pretendo validar aqui comportamentos de pessoas que utilizaram de dinheiro público para manter suas carreiras mesmo não havendo nenhum princípio para tal.

Fato é que as pessoas buscam motivos para externar aquilo que pensam e quando feito em grupo, faz com que se tornem mais presunçosas e intolerantes. Portanto, em reunião de um determinado grupo ideológico, o intuito nunca é esclarecer um ponto objetivo, mas direcionar o pensamento de todos para se tornar algo coerente. Isso vale para todo e qualquer tipo de coletivo, seja ele petista, bolsonarista, anarquista ou liberal.

Todos ecoam em uma voz uníssona e completamente retardada o que se estabeleceu para determinado grupo. E é justamente por isso que sou contrário às identidades que se criam a partir da junção de pessoas. O movimento conservador, por mais deturpado que esteja atualmente, no Brasil, surgiu a partir de certos ideais concretos, e as pessoas defendiam as ideias por serem ideias. Hoje, com a difusão do termo e a associação dele às pessoas erradas, quando se visualiza um conservador, a imagem que surge é a de um homem de meia idade que não entende o motivo de apoiar o que apoia, mas vamos ser a favor do Bolsonaro!

Que Lula virou uma figura mística intocável isso é fato. O petista, do médio ao mais esclarecido, é um ser iluminado pela luz do sol Lula, que nunca fez nada de errado e nunca faria.

E aqui está o problema. Quando se idolatra uma figura tão específica e falha, como um ser humano comum, você entra em contradição. Bolsonaro vem se mostrando como o que eu já esperava em 2018, com seus inúmeros defeitos e qualidades, mas não vejo nenhuma margem para acreditar que ele é santo. Veja bem, se trocarmos os nomes, desconsiderando que a frase parece vir de alguma postagem chula d'O Antagonista, temos:

"Que Bolsonaro virou uma figura mística intocável isso é fato. O bolsonarista, do médio ao mais esclarecido, é um ser iluminado pela luz do sol Messias, que nunca fez nada de errado e nunca faria".

Estranhamente se encaixa. Os grupos geralmente convergem não só em pensamento, mas em líderes. Portanto, quando se pretende manter livre o ideal, o meio que aparenta ser mais certo é a busca individual pela solução de determinados questionamentos.

Quando escrevi o artigo, meu intuito era o da maioria daqueles que escrevem: sintetizar um pensamento em algo concreto que pode ou não vir a mudar a ideia de alguém ou mesmo dar um norte para aqueles que já tendiam àquele pensamento. No entanto, o resultado foi completamente o oposto. Por mais que eu tivesse um objetivo X, o foco das pessoas foi Y, enviesados meramente pelo título do texto.

A conclusão é simples: artistas que eu não gosto + artista não tem opinião = fora bandidos. Todos temos motivos de sobra para detestarmos a maioria dos artistas, mas não é saudável confundir os temas todos com a mais idiota politicagem partidária. O fato mais interessante é que, mesmo tendo alcançado milhares de pessoas, a postagem possuía um link para que o texto pudesse ser lido, que em termos matemáticos, não teve de acessos o que teve de comentários. É muito improvável que alguém consiga formular uma opinião sobre algo que nem sequer leu, mas não para o leitor de manchete, ele é incrivelmente astuto e não precisa nem saber do que se trata para opinar veementemente.

E é para o leitor de manchete que direciono esse texto. Sai daqui.

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