Em defesa do ódio

Quem vê mais, um anão ou um gigante? Certamente um gigante, pois os seus olhos estão situados em um nível superior aos do anão. Mas se o anão fica sobre os ombros de gigantes, quem vê mais? Assim também nós somos anões sobre os ombros de gigantes. Dominamos sua sabedoria e seguimos para além dela. Devido à sua sabedoria, crescemos sábios e somos capazes de dizer tudo o que dizemos, mas não porque somos maiores do que eles.

A história é construída por uma sequência de períodos, todos organizados e descritos por uma cadência de acontecimentos conexos, perfeitamente colocados para o desenvolvimento de toda uma cultura e pensamento. Embora sejamos postos à disposição de um oceano de palavras e textos, transcritos pela infinidade de “zeros” e “uns”, nunca houve tamanho desrespeito por aquilo que ele representa. A recusa ao conhecimento do passado e o desprezo pelo futuro real é algo medonho, dignos de uma canção melancólica, a ser emanada pelas notas de algum musicista tristonho.

Colocarmos o “ser” frente ao “fui” cessa a comunicação com aquilo que deveríamos buscar, fecham-se as portas do passado e abrem-se as janelas do topo de um arranha-céu, onde a única frente é uma queda livre, meio a um abismo de arrependimentos, próprios ou coletivos.

Há de convir que a necessidade de uma reflexão do passado é preceito fundamental e básico da filosofia, sendo traço intrínseco do pensamento humano racional. No entanto, o negacionismo prolatado pela pseudo-intelectualidade atual torna todo o conceito referente à percepção de realidade em um redemoinho de futilidades, que escoam em histerias autodestrutivas.

Parte-se de um sentido reverso para a padronização do pensamento filosófico, somado à exclusão daquilo que é essencial à realização da fórmula dessa mentalidade, a reflexão retroativa, e cria-se uma multidão de “sábios” tolos, dispostos a destruir aquilo que é antigo e edificador, para então construírem um mundo novo de ideias, sem raízes, galhos ou frutos, no qual, tão somente colhem-se palavras vazias e convicções de lógica nula.

A basilar do pensamento conservador é que toda ideia parte de uma vivência que a originou, sendo um espelho metafísico daquilo que se fez presente em um momento da vivência de quem a descreve. Assim como foi na colocação de Antoine Lavoisier, “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, também é na natureza do pensamento, onde nenhuma ideia deve partir do nada, mas se expandir e se desmembrar em novas teorias e contra-teorias. Ter esse pilar infantilizado por devaneios desconstrutivistas é não só digno dos mesmos versos, como também protagoniza um infindo poema de estrofes sem rimas. Uma tortura métrica que causa bagunça não só a mente, mas traz devaneio ao espírito.

Antes de se pôr a questionar o ser, coloca-te a primordial incógnita do “foi”; existe alguém que “foi”, “pensou” e “realizou” muito à seu próprio respeito antes mesmo que você pensar em “ser”. Somos feitos nas subidas dos degraus, não na construção de novas escadas.

Hoje em dia, dizem-se que se faz por ódio a caminhada que deixa os olhos no passado e a mente voltada à manutenção do futuro, que não nega as origens e não pretende apagá-las para a sua reconstrução, prostrando-se sempre ao seu aprimoramento. Seria esse pensamento um mero ódio àquilo que é novo, ou o pleno desprezo por ideias natimortas, que surgem velhas e, no entanto, em contramão ao que é razoável, são postas como sobreposições às que já perduram durante toda a história?

Certamente tenho ódio, mas ao vago e flexível pensamento que hoje é impetrado em nossas escolas e universidades, prego a crítica ao deus da mentalidade dos "iluminados", que se colocam como centro do universo. O homem, por si só, é incapaz de criar conceitos filosóficos relevantes a partir do nada; sem uma raiz que as fixam no próprio mundo, suas ideias caem com uma simples chuva corriqueira.

Justamente por isso, o pensamento revolucionário, que pretende se desvincular das origens e apagar toda a história que não lhe interessa, é não só impossível de se concretizar, como também é fruto de uma mentalidade maquiavélica. Hoje vemos estátuas e livros sendo destruídos por aqueles que se dizem defensores da história, da democracia e da liberdade. Os princípios da Revolução Francesa são palavras ao vento que nunca condizeram com a real situação que se passa nestes movimentos.

A ideia de derrubar o prédio do mundo para se construir um novo deveria ser descartada como uma mera falácia, mas possui pódio como único meio de alcançar o mundo ideal, uma utopia que termina distópica. Vejo-me circundado de vazios que inundam as consciências mais jovens que não tiveram tempo, nem recursos suficientes para amadurecerem como singularidades, como indivíduos pensantes.

Esmagados por folhas em branco, encontram-se mentes cobiçosas por conhecimento que em suas veredas se depararam trancafiados numa viela suja de falsos filósofos. E jogados aos cantos estão o que ousam se mostrar como os textos sujos que nos são apresentados, buscam não apenas reconstruir partes da história, mas alterá-la completamente.

Para só então à conclusão óbvia, de que adiantam gigantes ajoelhados, se os anões sequer estão dispostos a uma curta caminhada até suas próprias libertações? De nada. E mesmo os que a querem são acorrentados aos seus pés, para apreciarem a vista daquilo que jamais alcançarão.

Cultivo uma singela antipatia por aqueles que cortam as árvores da razão para transformá-las em bonsais de cabeceira e as colocarem como decoração de seus criados-mudos intelectuais. Como os odeio.

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